Antibióticos em Bebês: Risco de Asma e Alergia em Estudo
Estudo publicado no Journal of Infectious Diseases associa uso de antibiótico antes dos 2 anos a maior risco de asma, alergia alimentar e rinite alérgica.

Em abril de 2025, o Journal of Infectious Diseases publicou um estudo que deu novo peso ao nosso "não precisa de antibiótico". Pesquisadores da Universidade Rutgers analisaram dados de mais de 1 milhão de crianças no Reino Unido, acompanhadas do nascimento até os 12 anos de idade. O resultado tem tradução clínica direta: antibiótico antes dos 2 anos está associado a maior risco de asma, alergia alimentar e rinite alérgica, com relação dose-resposta clara.
Resumo rápido
Estudo Beier et al. (Journal of Infectious Diseases, 2025) com dados de mais de 1 milhão de crianças do Clinical Practice Research Datalink (Reino Unido).
Antibiótico antes dos 2 anos aumentou o risco de asma em 24% (1-2 cursos) e em 52% (5 ou mais cursos).
Risco de alergia alimentar: aumento de 33% (1-2 cursos) e 53% (5 ou mais cursos).
Risco de rinite alérgica: aumento de 6% (1-2 cursos) e 18% (5 ou mais cursos).
A associação se manteve em análise pareada entre irmãos com exposições diferentes a antibióticos, e após ajuste para histórico familiar de atopia, prematuridade e nível socioeconômico.
Não houve associação consistente com doenças autoimunes (doença celíaca, doença inflamatória intestinal, artrite idiopática juvenil) nem com TEA ou TDAH.
Por que o microbioma muda tudo
Nos dois primeiros anos de vida, o microbioma intestinal é montado, diversificado e estabilizado em uma configuração que vai acompanhar a criança pela vida toda.
Esse período coincide com a janela em que o sistema imune aprende a distinguir antígenos inofensivos (alimentos, pólen, ácaro) de patógenos. A flora intestinal participa ativamente desse treinamento, calibrando respostas Th1, Th2 e regulatórias.
Quando o antibiótico entra de forma repetida nesse intervalo, ele não distingue bactéria patogênica de comensal. A flora empobrece, a diversidade cai e o sistema imune, em fase de programação, pode pender para respostas Th2 (alérgicas), com maior produção de IgE e maior chance de sensibilização a alérgenos ambientais e alimentares.
A janela não reabre e o que se programa nessa fase tende a persistir.
O que o estudo da Rutgers mostrou
O grupo liderado por Daniel Horton analisou prontuários eletrônicos do Clinical Practice Research Datalink, base que reúne registros de medicamentos e diagnósticos em atenção primária no Reino Unido entre 1987 e 2020. Mais de 1 milhão de crianças foram acompanhadas desde o nascimento. A exposição primária foi prescrição de antibiótico nos primeiros 2 anos de vida. Os desfechos foram diagnósticos de asma, alergia alimentar, rinite alérgica, eczema, doenças autoimunes e condições do neurodesenvolvimento entre 27 meses e 12 anos.
As crianças foram estratificadas pelo número de cursos de antibiótico recebidos antes dos 2 anos: nenhum, 1 a 2 cursos, 3 a 4 cursos, 5 ou mais cursos.
Os hazard ratios (HR) ajustados foram os seguintes:
Asma: HR 1,24 (1-2 cursos) → HR 1,52 (5 ou mais cursos).
Alergia alimentar: HR 1,33 (1-2 cursos) → HR 1,53 (5 ou mais cursos).
Rinite alérgica: HR 1,06 (1-2 cursos) → HR 1,18 (5 ou mais cursos).
A relação dose-resposta foi consistente nos três desfechos. E o ponto metodológico mais robusto: a associação se manteve em análise pareada entre irmãos da mesma família com diferentes históricos de exposição a antibióticos, o que controla para fatores genéticos, socioeconômicos e ambientais compartilhados.
Houve sinal também para deficiência intelectual, com os próprios autores recomendando mais investigação antes de conclusões mais fortes. Para doenças autoimunes (celíaca, DII, AIJ) e neurodesenvolvimento (TEA, TDAH), o estudo não encontrou associação consistente.
Como esses achados mudam a prescrição dos antibióticos
Antibiótico necessário continua sendo prescrito. Sempre. O estudo não muda condutas com indicação bacteriana confirmada.
O que muda é o peso da conversa em três cenários muito frequentes na pediatria:
Otite média aguda
Em crianças a partir de 2 anos sem complicações e sem comprometimento sistêmico, a espera ativa por 48 a 72 horas é segura e recomendada pelas diretrizes da AAP e da SBP. A reavaliação no retorno define a conduta, e a maioria resolve sem antibiótico.
Faringite
Etiologia viral em mais de 70% dos casos em crianças. Antibiótico só é indicado após teste rápido positivo para estreptococo do grupo A ou cultura confirmatória. Faringite "presumida bacteriana" pelo aspecto da orofaringe é considerado um argumento fraco.
IVAS
A imensa maioria é viral. Antibiótico não acelera a cura, não previne complicação bacteriana secundária em criança previamente hígida, e agora tem o custo documentado de aumentar risco de doenças alérgicas crônicas.
Em qualquer dúvida, a alternativa à prescrição "por precaução" é orientar a família sobre sinais de alerta, documentar a conduta no prontuário e marcar retorno em 48 horas. A conduta deve ser ativa, não passiva.
A frase que reorganiza a conversa com a família
Antes do estudo, o argumento era fisiopatológico: "É viral, não precisa." Agora há um número que muda o tom da conversa.
Essa pode ser uma forma de abordagem útil para você usar na próxima consulta:
"Eu entendo que você quer que ele melhore logo, e eu também. Mas tem um estudo publicado recentemente, com mais de 1 milhão de crianças, mostrando que antibiótico desnecessário antes dos 2 anos aumenta o risco de asma e alergia alimentar pra vida toda. Por isso eu prefiro não prescrever agora. Vou te orientar exatamente o que observar, e em 48 horas a gente reavalia. Se piorar antes, você me chama. Pode ser?"
A família que recebe essa explicação entende que a não prescrição é uma conduta ativa, baseada em evidência, e não desinteresse do pediatra pelo desconforto do filho.
Perguntas frequentes
Antibiótico em criança pequena sempre faz mal?
Não. Antibiótico com indicação bacteriana confirmada é tratamento essencial e, em muitos casos, salva vidas. O estudo não questiona o uso quando indicado. Questiona o uso desnecessário, que infelizmente ainda é frequente na pediatria.
Se a criança já recebeu vários cursos de antibiótico antes dos 2 anos, posso fazer alguma coisa?
A reconstituição do microbioma é tema ativo de pesquisa. A orientação atual envolve estímulo à alimentação variada com fibras (alimentação complementar diversificada), aleitamento materno prolongado quando possível, evitar antibióticos não indicados nas próximas exposições e atenção redobrada a sinais precoces de doenças alérgicas.
Probióticos previnem o efeito do antibiótico no microbioma do bebê?
Probióticos têm evidência limitada para prevenção de doenças alérgicas. A discussão sobre uso específico durante curso de antibiótico para preservar diversidade microbiana segue aberta na literatura, sem recomendação consolidada para uso rotineiro.
Existe diferença entre os tipos de antibiótico?
Antibióticos de espectro mais largo causam mais perturbação do microbioma do que os de espectro estreito. O estudo da Rutgers não estratificou por classe, e essa é uma das linhas de pesquisa que os próprios autores apontam como prioridade.
Como abordar a família que pede antibiótico mesmo após orientação?
Validar a preocupação, explicar a evidência atual, propor reavaliação programada em 48 a 72 horas e documentar no prontuário. Quando há recusa explícita da família e a indicação clínica é clara para não prescrever, a recomendação é manter a conduta e oferecer o retorno.
Conclusão prática
A hipótese do microbioma e suas relações com doenças alérgicas existe há mais de uma década. O que esse estudo trouxe foi um peso estatístico inédito: 1 milhão de crianças, mais de 10 anos de seguimento, análise pareada entre irmãos.
Para o pediatra de consultório, o tamanho da amostra muda menos a conduta clínica e mais a conversa com a família. Quem prescrevia antibiótico "por precaução" agora tem um argumento concreto para reorganizar a prática. Quem já praticava prescrição racional ganhou um dado robusto para fortalecer a comunicação.
A regra prática segue simples: quando houver recomendação, o antibiótico segue sendo prescrito sempre. Quando não houver indicação, se aproprie do argumento de que ele não é inofensivo, e agora tem custo medido em risco de doença crônica.
Quer continuar se aprofundando em temas que levam o pediatra à excelência clínica?
Toda semana enviamos uma newsletter científica leve, profunda e gratuita, com estudos recentes que valem sua atenção e o resumo prático pra aplicar no consultório já na próxima consulta.
[Assine The Peds Journal] e receba direto na sua caixa de entrada.
Aviso Medico
Este conteudo e destinado exclusivamente para fins educativos e nao substitui consulta medica. Sempre consulte um pediatra para orientacoes especificas sobre seu paciente.
Escrito por
pdc
Pediatra
Sobre as criadoras do PDC

Gabrielly de Araujo Precht
CRMSP 194.203 / RQE 99851|998511
Pediatra pelo IAMSPE e Neonatologista pela USP – FMUSP. Pediatra de consultorio. Formacao em Negocios pela Stanford Graduate School of Business.

Julie Anne Colnago
CRMSP 120.429 / RQE 32568|325681
Pediatra pelo Hospital Infantil Darcy Vargas – SUS – SP; Hematologista Pediatrica pela UNIFESP e Pos graduacao em Nutricao Infantil pela Boston University School of Medicine. Pediatra de consultorio ha 16 anos.


