Critérios de Roma V em Pediatria: Novos Diagnósticos e Tratamentos
O que muda com o Roma V: cólica vira Síndrome de Distress do Lactente, surgem novos diagnósticos pediátricos e ajustes podem ser feitos em constipação e diarreia funcional.

Chega no consultório aquele bebê que não para de chorar há semanas, e você tende a confirmar a suspeita de cólica da mãe. Só que agora, tecnicamente, essa palavra não existe mais na medicina.
O Comitê Internacional de Gastroenterologia Pediátrica aposentou a "cólica do lactente", colocou no lugar uma nomenclatura mais precisa, expandiu critérios e trouxe pela primeira vez à pediatria diagnósticos que antes só existiam para adultos.
Em janeiro de 2026, o Gastroenterology publicou um dos três documentos fundadores dos Critérios de Roma V pediátricos (Di Lorenzo et al.), cobrindo distúrbios do trato gastrointestinal inferior e das vias biliares. E é isso o que você vai entender nesse artigo.
Resumo rápido
"Distúrbios funcionais gastrointestinais" foi substituído por "Distúrbios da Interação Intestino-Cérebro" (DGBI).
"Cólica do lactente" passa a se chamar "Síndrome de Distress do Lactente" (SDL). O limite de 5 meses foi removido.
Lactobacillus reuteri DSM 17938 é o tratamento com melhor evidência para SDL, com redução média de 64,6 minutos de choro por dia.
Constipação funcional: critério de duração reduzido de 2 meses para 1 mês. Limite superior de idade foi removido.
Diarreia funcional: critério agora vai até os 18 anos (antes era restrito a pré-escolares).
Novos diagnósticos pediátricos: Síndrome de Dor Abdominal Centralizada (CAPS), Síndrome de Dor Biliar, Proctalgia Fugax e Bloating Funcional.
Por que "DGBI" e não mais "distúrbio funcional"
A troca não é cosmética. É clínica.
Em termos simples: Distúrbio da Interação Intestino-Cérebro (DGBI, do inglês Disorder of Gut-Brain Interaction) é um grupo de condições em que a disfunção da via bidirecional entre o sistema nervoso central, o sistema nervoso entérico e o microbioma intestinal gera sintomas reais, ainda que sem lesão estrutural identificável em exames convencionais.
O termo "funcional" sugeria ausência de doença orgânica e, na percepção da família, virava sinônimo de "não tem nada". Esse vácuo conceitual minava a credibilidade do diagnóstico e dificultava a adesão ao tratamento.
DGBI nomeia o mecanismo real. O eixo intestino-cérebro envolve o nervo vago, o sistema nervoso entérico, o microbioma intestinal e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Estresse físico, emocional ou infeccioso pode perturbar essa comunicação, gerando sintomas autênticos.
Para o pediatra, a virada permite uma conversa diferente com a família: "Existe sim uma disfunção. Ela não aparece em exame de imagem nem em endoscopia. Mas é real, tem mecanismo conhecido e tratamento orientado."
O fim da "cólica": Síndrome de Distress do Lactente
Essa é a mudança mais cotidiana do Roma V para o pediatra de consultório.
O termo "cólica" foi aposentado porque sugeria origem colônica, hipótese nunca confirmada cientificamente. O novo nome (Síndrome de Distress do Lactente, SDL) reflete o entendimento atual: choro excessivo e recorrente no lactente é multifatorial, com componentes gastrointestinais, neurológicos e psicossociais.
Critérios atualizados:
Choro/irritabilidade recorrente, sem causa identificável, em lactente com bom ganho ponderal.
Episódios com duração e padrão de difícil consolo, percebidos como excessivos pelos pais.
O limite superior de idade dos 5 meses foi removido. Bebês que mantêm o quadro além desse marco também recebem o diagnóstico.
Mecanismos com evidência:
Microbioma alterado: lactentes com SDL apresentam mais Proteobacteria e menos Bifidobacterium e Lactobacillus, com menor diversidade bacteriana geral.
Uso de antibiótico na primeira semana de vida está associado a maior risco de SDL, provavelmente por disbiose precoce.
Ansiedade materna precede o quadro e funciona como fator de risco. Depressão materna tende a ser consequência, criando ciclo vicioso.
Tratamento com melhor evidência:
Lactobacillus reuteri DSM 17938 é o único probiótico com evidência consistente, com redução média de 64,6 minutos de choro por dia em meta-análises.
Simeticona, inibidor de bomba de prótons (IBP) e quiropraxia têm evidências de fracas a inexistentes e não são recomendados.
Os novos diagnósticos pediátricos
Quatro condições que antes existiam apenas na nomenclatura adulta agora têm critério pediátrico:
Síndrome de Dor Abdominal Centralizada (CAPS)
Dor abdominal contínua ou quase contínua, grave o suficiente para interferir nas atividades diárias, que não responde a tratamentos convencionais.
O mecanismo é sensibilização central: o sistema nervoso central amplifica sinais que normalmente seriam ignorados.
O manejo é multidisciplinar: psicologia, neurologia, fisioterapia e, quando necessário, medicação para modulação central da dor. Vale o encaminhamento precoce para esses casos, que costumam ficar perdidos em investigação interminável.
Síndrome de Dor Biliar Pediátrica
Dor episódica no quadrante superior direito (com ou sem envolvimento epigástrico), de início agudo, duração mínima de 30 minutos, intensa o suficiente para motivar busca de atendimento médico.
Ponto crítico do Roma V: a fração de ejeção da vesícula biliar não é recomendada para diagnóstico. Colecistectomia tem taxas de sucesso entre 34% e 100% nesses casos, o que reflete inconsistência diagnóstica e impõe cautela. A cirurgia só deve ser considerada após falha documentada de tratamentos não cirúrgicos.
Proctalgia Fugax
Dor anal episódica, súbita, intensa, com duração de segundos a minutos, que resolve espontaneamente. Rara em crianças, mas existente. Não é abuso, não é fissura, não é crise. É dor retal de origem neuromuscular, autolimitada. O reconhecimento do diagnóstico evita investigação invasiva desnecessária e valida o sofrimento da criança.
Bloating Funcional Abdominal
Distensão e/ou sensação de inchaço abdominal recorrente, sem outro diagnóstico GI mais específico que explique, sendo particularmente relevante em adolescentes.
O que mudou em constipação e diarreia funcional
Constipação funcional
Critério de duração reduzido de 2 meses para 1 mês: isso aproxima o diagnóstico do que a prática clínica já fazia.
Limite superior de idade removido: qualquer idade pediátrica recebe o diagnóstico com os mesmos critérios.
"Esforço para evacuar" foi adicionado como critério, refletindo melhor a vivência clínica.
A conduta de primeira linha segue sendo polietilenoglicol (PEG), com mudanças de hábito alimentar e treino de toalete. O Roma V não muda a conduta, apenas atualiza os limiares de início.
Diarreia funcional
Antes restrita a pré-escolares (até 5 anos). Agora o critério vai até os 18 anos.
A mudança resolve um problema clínico real: o adolescente com fezes amolecidas crônicas, sem dor, sem sangue, sem causa orgânica identificável, que ficava sem diagnóstico nominal.
O que muda na sua consulta
A maioria das condutas práticas não muda. PEG segue como primeira linha em constipação. Abordagem biopsicossocial segue como pilar em SII pediátrica. Validação, tranquilização e suporte seguem como base do manejo da SDL.
O que o Roma V faz é dar peso conceitual à conversa e preencher lacunas diagnósticas:
Trocar "distúrbio funcional" por "Distúrbio da Interação Intestino-Cérebro" quando for explicar o mecanismo à família.
Aposentar a palavra "cólica" da consulta. Falar Síndrome de Distress do Lactente (ou Síndrome de Desconforto do Lactente, em tradução mais palatável).
Considerar CAPS para a criança com dor abdominal contínua e refratária. Encaminhar para equipe multidisciplinar.
Pensar em Síndrome de Dor Biliar antes de pedir fração de ejeção ou indicar colecistectomia.
Lembrar que Diarreia Funcional agora cobre até os 18 anos.
Perguntas frequentes
A "cólica do lactente" virou Síndrome de Distress do Lactente. O que muda no tratamento?
A conduta segue centrada em validação parental, orientações antecipatórias e Lactobacillus reuteri DSM 17938 como única intervenção com evidência consistente. Simeticona, IBP e quiropraxia não são recomendados.
A Síndrome de Distress do Lactente tem limite de idade superior?
No Roma V, o limite de 5 meses foi removido. Bebês que mantêm o padrão além disso também recebem o diagnóstico, com investigação ativa de diagnósticos diferenciais quando o quadro é atípico.
Constipação funcional precisa de quanto tempo para ser diagnosticada?
Pelo Roma V, 1 mês de sintomas é suficiente, em qualquer idade pediátrica. Antes eram 2 meses, com critérios distintos para faixas etárias.
Quando suspeitar de CAPS em uma criança?
Dor abdominal contínua ou quase contínua, sem padrão temporal de crises, refratária a tratamentos convencionais e com prejuízo funcional importante. O encaminhamento para abordagem multidisciplinar precoce muda o prognóstico.
Colecistectomia em adolescente com dor biliar funcional: indicar ou esperar?
O Roma V recomenda cautela. Fração de ejeção da vesícula não é critério diagnóstico. Cirurgia só após tentativa documentada de tratamento não cirúrgico, dada a inconsistência das taxas de sucesso pós-operatório.
Os Critérios de Roma V já estão incorporados nas guidelines da ESPGHAN e NASPGHAN?
A incorporação está em curso. As guidelines clínicas dessas sociedades historicamente seguem os critérios de Roma como base diagnóstica, e a atualização para Roma V está prevista nos próximos ciclos de revisão.
Conclusão prática
O Roma V não exige reaprender a gastroenterologia pediátrica. Exige atualizar nomenclatura, expandir critérios em pontos específicos e reconhecer diagnósticos novos que antes ficavam sem nome.
Mas o ganho maior é narrativo. "Distúrbio da Interação Intestino-Cérebro" muda como a família entende a condição do filho. "Síndrome de Distress do Lactente" muda como o pediatra valida o que os pais estão vivendo. E os novos diagnósticos pediátricos dão nome a sofrimentos que antes ficavam órfãos.
A pediatria que reconhece e nomeia o que a criança sente é a pediatria que constrói vínculo, adere a tratamento e gera desfechos satisfatórios.
Quer continuar se aprofundando em temas que levam o pediatra à excelência clínica?
Toda semana enviamos uma newsletter científica leve, profunda e gratuita, com estudos recentes que valem sua atenção e o resumo prático pra aplicar no consultório já na próxima consulta.
[Assine The Peds Journal] e receba direto na sua caixa de entrada.
Aviso Medico
Este conteudo e destinado exclusivamente para fins educativos e nao substitui consulta medica. Sempre consulte um pediatra para orientacoes especificas sobre seu paciente.
Escrito por
pdc
Pediatra
Sobre as criadoras do PDC

Gabrielly de Araujo Precht
CRMSP 194.203 / RQE 99851|998511
Pediatra pelo IAMSPE e Neonatologista pela USP – FMUSP. Pediatra de consultorio. Formacao em Negocios pela Stanford Graduate School of Business.

Julie Anne Colnago
CRMSP 120.429 / RQE 32568|325681
Pediatra pelo Hospital Infantil Darcy Vargas – SUS – SP; Hematologista Pediatrica pela UNIFESP e Pos graduacao em Nutricao Infantil pela Boston University School of Medicine. Pediatra de consultorio ha 16 anos.


