Distúrbios Alimentares Funcionais Pediátricos: Novos Diagnósticos Roma V
O Roma V substituiu o ARFID por 4 diagnósticos específicos para pediatria. Veja o que muda na anamnese e na conduta da criança que "come pouco".

A queixa chega há anos no consultório e costuma sair da consulta em 30 segundos. "É fase", "é seletividade", "vai passar". No melhor cenário, é feito encaminhamento genérico para psicologia. A criança segue comendo três alimentos, a refeição segue virando conflito e a família segue exausta.
Em fevereiro de 2026, o Gastroenterology publicou o capítulo pediátrico do Roma V sobre distúrbios funcionais do trato gastrointestinal superior (Rosen et al.). O painel propôs oficialmente aposentar o termo ARFID (Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder) e criar quatro diagnósticos específicos para pediatria, cada um com critério próprio, mecanismo distinto e abordagem terapêutica diferente.
Nesse artigo, você vai entender o que muda na conduta da criança com queixa alimentar.
Resumo rápido
Roma V pediátrico (Rosen et al., Gastroenterology, fevereiro de 2026): capítulo específico para distúrbios da interação intestino-cérebro do TGI superior.
5% a 20% das crianças apresentam distúrbio alimentar pediátrico. Em coortes pediátricas, 86% dos casos têm doença médica de base identificável.
ARFID foi aposentado como diagnóstico único. Em seu lugar, entram quatro diagnósticos específicos: Disfagia Hipersensível (HD), Alimentação Restritiva Antecipatória (ARF), Distúrbio da Desregulação da Fome, e Distúrbio Alimentar Funcional Medicamente Desencadeado (MTFFD).
15% das crianças com queixa alimentar têm esofagite eosinofílica (EoE). Endoscopia digestiva alta é "quase sempre recomendada" antes de rotular como FPFD.
Dietas restritivas (FODMAP, sem glúten, sem lácteos) não devem ser usadas como manejo inicial, pois podem piorar o quadro.
Encaminhamento genérico para psicologia é conduta inadequada. Cada subtipo tem manejo específico.
Por que aposentar o ARFID
O ARFID entrou no DSM-5 tentando cobrir um vácuo diagnóstico real. Mas, na leitura do painel do Roma V, o rótulo agrupava condições com mecanismos completamente diferentes sob um mesmo nome:
Uma criança com sensação de comida presa na garganta (problema sensorial). Uma criança com medo de comer após vômito anterior (problema ansioso-comportamental). Uma criança que simplesmente não sente fome (problema de regulação da fome). Uma criança que perdeu a mastigação depois de uma esofagite eosinofílica bem tratada (problema de habilidade). Quatro mecanismos, quatro tratamentos, um único rótulo.
Assim, o painel propõe que o termo ARFID seja eliminado e substituído por termos mais precisos.
O critério-guarda-chuva do FPFD
Antes de chegar aos quatro subtipos, o Roma V estabeleceu um critério geral (chamado critério G2) que qualquer FPFD precisa preencher:
Padrões alimentares alterados que:
Interferem na função (escolar, social, familiar).
Ocorrem pelo menos 3 vezes por semana.
Não são atribuíveis a diagnóstico médico ou de habilidade já adequadamente avaliado e manejado.
Mais pelo menos um dos seis componentes específicos:
Comprometimento nutricional (deficiência de micro ou macronutriente).
Uso de suporte nutricional enteral ou parenteral.
Comportamentos ativos ou passivos de evitação.
Dieta restrita ou seletiva, ou dieta não apropriada para o desenvolvimento, usada para controlar sintomas.
Ausência da autoalimentação esperada para a idade.
Uso excessivo de estratégias rotineiras para completar a refeição (mastigação prolongada, "empurrar com líquido", ritmo muito lento).
Duração mínima: 1 mês.
Ponto crucial: o comprometimento nutricional não é obrigatório. Se a criança preencher um dos outros cinco itens, o critério pode fechar.
Os quatro subtipos
1. Disfagia Hipersensível (HD)
A criança sente a comida "presa" na garganta ou no peito, sem qualquer anormalidade anatômica, motora ou de trânsito demonstrável em exames.
Critérios: sem anormalidades estruturais ou de mucosa em faringe ou esôfago, sem distúrbio motor esofágico maior, sem anormalidade de trânsito do bolo em manometria de alta resolução com impedância ou esofagograma.
Particularidade pediátrica: inclui sensações tanto orofaríngeas quanto esofágicas (criança nem sempre localiza), e comportamentos como não colocar a comida na boca, mastigar e cuspir, ou beber grande quantidade de líquido para "ajudar a engolir".
Peso entre os antigos ARFID: 11% a 21% dos casos.
2. Alimentação Restritiva Antecipatória (ARF)
A criança tem medo de comer porque teve experiência aversiva prévia (vômito, dor, engasgo, sensação de prender, sufocamento, náusea, distensão).
Critérios: distúrbio dirigido pela antecipação de experiência aversiva mais pelo menos um dos seguintes fatores: perda significativa de peso (ou falha em ganhar peso esperado), deficiência nutricional significativa, dependência de nutrição enteral ou suplemento oral, interferência marcada com outras funções psicossociais.
Sinal clínico clássico: eliminação de grupos alimentares inteiros, texturas específicas (líquidos, semi sólidos, sólidos) ou temperaturas. Verbalização de ansiedade, nojo ou medo diante de comidas novas ou associadas a sintomas.
Peso entre os antigos ARFID: 21% a 68% dos casos. Mais de 80% dessas crianças têm outros distúrbios da interação intestino-cérebro concomitantes (refluxo, dispepsia, dor abdominal funcional), num ciclo de "tive sintoma → tenho medo → restrinjo → fico mais ansiosa".
3. Distúrbio da Desregulação da Fome
Diagnóstico novo para cenário frequente sem nome até então, com dois subtipos:
Drive de fome reduzido: a criança não come voluntariamente alimentos calóricos apropriados para a idade após período de jejum. Precisa de agendamento das refeições para ter ingesta adequada. Não tem aquela sensação de "estou com fome".
Drive de fome excessivo: a criança não consegue parar de comer após terminar a refeição. Come excessivamente entre as refeições. Beliscar constante não como hábito cultural, mas como descontrole.
Peso entre os antigos ARFID: 43% a 82% dos casos, com predomínio do subtipo reduzido. Subgrupo mais comum do antigo ARFID.
4. Distúrbio Alimentar Funcional Medicamente Desencadeado (MTFFD)
A criança tinha uma doença real (doença do refluxo gastroesofágico grave, esofagite eosinofílica, infecção, intercorrência cirúrgica) e desenvolveu dificuldade alimentar. Mas a doença foi adequadamente tratada e a dificuldade alimentar persiste.
Critérios: desenvolveu-se no contexto de uma condição médica, mas a disfunção alimentar persiste após a condição ter sido resolvida. Manifesta-se como regressão ou parada da progressão de padrões e habilidades alimentares previamente alcançados, sem atribuição possível à condição médica residual.
Apresentação clássica: criança que teve DRGE ou EoE no fim do primeiro ano, foi tratada com sucesso, mas continua aceitando apenas líquidos ou perdeu a mastigação adquirida. Não é medo. É perda de habilidade previamente estabelecida.
Investigação obrigatória antes de rotular como FPFD
O Roma V é categórico: endoscopia digestiva alta é "quase sempre recomendada" antes de cravar diagnóstico de FPFD.
Números para lembrar:
25% a 50% das crianças com EoE apresentam disfagia ou dificuldade alimentar.
15% das crianças com queixa alimentar têm EoE diagnosticável na endoscopia.
EoE pode ser diagnosticada em qualquer idade pediátrica, inclusive lactentes. Não existe idade mínima formal para investigar quando há suspeita clínica persistente.
Painel laboratorial inicial: hemograma, eletrólitos, sorologia para doença celíaca, função tireoidiana. Conforme a história: ferro, vitaminas A, C, D, B12, folato, zinco, carnitina, função hepática, tiamina.
Avaliação de habilidades alimentares com fonoaudiólogo: 61% das crianças com problema alimentar têm disfunção orofaríngea. Sem essa avaliação, o pediatra pode tratar o quadro errado.
Como conduzir no consultório
Aplique os critérios antes de despachar como fase. Padrão ≥ 3 vezes na semana, duração ≥ 1 mês, mais pelo menos um dos seis componentes. Documente na anamnese os componentes preenchidos.
Investigue o medicamente investigável antes de qualquer diagnóstico funcional. Painel mínimo laboratorial, sorologia celíaca, função tireoidiana. Endoscopia digestiva alta com biópsia (contagem eosinofílica obrigatória) em suspeita clínica persistente.
Tente classificar em um dos 4 subtipos. Sensação de comida presa sem alteração estrutural → HD. Medo alimentar após experiência aversiva → ARF. Alteração no drive de fome → Distúrbio da Desregulação da Fome. Perda de habilidade após doença tratada → MTFFD. O nome direciona o tratamento.
Não indique dietas restritivas como tratamento de FPFD. Low FODMAP, sem glúten, sem lácteos, sem lactose… Essas dietas podem aumentar a ansiedade relacionada à refeição e piorar o quadro. Use apenas quando há indicação médica específica (doença celíaca confirmada, alergia confirmada, EoE em terapia eliminatória direcionada).
Não encaminhe para sonda nasoenteral como primeiro passo. Suporte enteral é exceção. Nutrição parenteral não é recomendada em FPFD.
Encaminhe à equipe multidisciplinar quando:
FPFD confirmado com comprometimento nutricional ou alteração de sinais vitais.
Suspeita de comorbidade psiquiátrica (ansiedade, depressão, TOC, TDAH).
MTFFD (quase sempre exige fonoaudiologia).
ARF resistente ao manejo inicial em consultório.
Avalie o bem-estar da família. Distúrbio alimentar aumenta estresse do cuidador, diminui confiança parental e gera interações negativas. Pergunte como está a mãe, como está o casal, como está o irmão que assiste ao conflito. Isso também faz parte do manejo.
Atualize o vocabulário. Não escreva mais "ARFID" no encaminhamento. Escreva o subtipo correto. O especialista chega mais rápido à abordagem certa.
Perguntas frequentes
Toda criança seletiva tem FPFD?
Não. Seletividade transitória, especialmente no segundo ano de vida, é comum e autolimitada. O critério de FPFD exige frequência, duração e componente específico. Seletividade sem esses critérios segue sendo manejada com orientação nutricional e comportamental.
A criança está ganhando peso normal. Ainda pode ser FPFD?
Sim. O comprometimento nutricional não é obrigatório. Se a criança preenche outros componentes (dieta extremamente restrita, refeição que consome muito tempo, evitação marcada), o critério pode fechar mesmo com peso adequado.
Qual a idade mínima para investigar esofagite eosinofílica?
Não existe idade mínima formal. EoE pode ser diagnosticada em lactentes. O critério é suspeita clínica persistente.
Como diferenciar ARF de MTFFD em criança que teve EoE?
ARF é medo (a criança teme comer e evita ativamente). MTFFD é perda de habilidade (a criança "esqueceu" como mastigar e comer sólidos, sem medo verbalizado). São cenários, que exigem manejos diferentes.
Quando indicar suporte nutricional enteral em FPFD?
Como exceção, em quadros graves com falha de outras abordagens e comprometimento nutricional significativo. Não como primeiro passo. A tendência atual é evitar a sonda em favor de abordagem multidisciplinar comportamental.
Como conversar com a família sobre o diagnóstico?
Reforce que existe nome, existe caminho e a preocupação familiar é legítima. Nomear a condição alivia parte do estresse familiar acumulado por anos de "é fase" sem plano.
Conclusão prática
A queixa "criança que come pouco e só o que quer" está entre as mais frequentes do consultório de pediatria geral. Até fevereiro de 2026, o pediatra tinha o DSM-5 e a palavra "seletividade" como ferramentas. Agora tem critério objetivo, subtipo específico e caminho terapêutico distinto para cada quadro.
O ARFID como rótulo único deu lugar a quatro diagnósticos que descrevem mecanismos diferentes. Anamnese ampliada, investigação estrutural quando indicada, classificação em subtipos e encaminhamento com foco específico substituem o "encaminha para psicologia" que dominou o cuidado nos últimos anos.
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Aviso Medico
Este conteudo e destinado exclusivamente para fins educativos e nao substitui consulta medica. Sempre consulte um pediatra para orientacoes especificas sobre seu paciente.
Escrito por
pdc
Pediatra
Sobre as criadoras do PDC

Gabrielly de Araujo Precht
CRMSP 194.203 / RQE 99851|998511
Pediatra pelo IAMSPE e Neonatologista pela USP – FMUSP. Pediatra de consultorio. Formacao em Negocios pela Stanford Graduate School of Business.

Julie Anne Colnago
CRMSP 120.429 / RQE 32568|325681
Pediatra pelo Hospital Infantil Darcy Vargas – SUS – SP; Hematologista Pediatrica pela UNIFESP e Pos graduacao em Nutricao Infantil pela Boston University School of Medicine. Pediatra de consultorio ha 16 anos.


