PDC
Pediatra de Consultorio
InicioConteudosBuscar
PDC
Pediatra de Consultorio
InicioConteudos

© 2026 Pediatra de Consultorio

Voltar para o blog
Informativo

GINA 2026: Mudanças na Asma Pediátrica e Novas Recomendações

pdc
28 de julho de 2026
8 min de leitura

Novos fluxogramas pediátricos, PRAM como recomendação forte, ICS-formoterol no Step 1 em crianças de 6 a 11 anos e alvo de SpO2 mais conservador.

GINA 2026: Mudanças na Asma Pediátrica e Novas Recomendações

A receita padrão para a criança que chega com crise leve de asma virou reflexo automático em muitos consultórios pediátricos: Salbutamol em várias doses seguidas, corticoide oral, retorno em uma semana.

O documento GINA 2026 (Global Initiative for Asthma), publicado em 5 de maio de 2026, mexeu em várias linhas desse roteiro. E não foi uma mudança sutil: quatro fluxogramas pediátricos inéditos, PRAM como recomendação forte, evidência nova para ICS-formoterol no Step 1 em crianças de 6 a 11 anos, alvo de saturação de oxigênio mais baixo e doses de SABA (beta-2 agonista de curta duração) mais conservadoras.

Aqui você vai encontrar as sete mudanças principais, e como elas mudam a prescrição do consultório.

Resumo rápido

  • Documento: Global Initiative for Asthma 2026 Strategy Report, publicado em 5 de maio de 2026.

  • Quatro fluxogramas pediátricos inéditos: dois para crianças de 6 a 11 anos e dois para menores de 5 anos, cada par cobrindo cenários de consultório e emergência.

  • PRAM (Escore Pediátrico de Avaliação Respiratória) tornou-se recomendação forte para avaliação de exacerbações em menores de 18 anos.

  • ICS-formoterol em crianças de 6 a 11 anos com asma leve ganhou evidência B como Anti-Inflammatory Reliever (AIR) no Step 1, com base no ensaio CARE.

  • Oxigênio suplementar agora indicado apenas quando saturação abaixo de 92%.

  • SABA na crise leve: 4 puffs (um de cada vez), com reavaliação antes de repetir.

  • Anafilaxia associada à crise asmática: adrenalina intramuscular antes do broncodilatador, sempre.

O ensaio CARE e a virada no Step 1

Em termos simples, o Step 1 do GINA é o degrau de tratamento para asma mais leve, com sintomas raros e intermitentes. Até o GINA 2025, a recomendação para crianças de 6 a 11 anos era ICS em dose baixa de manutenção ou ICS aplicado sempre que houvesse necessidade de SABA. ICS-formoterol como alívio ficava reservado a partir do Step 3, no esquema MART.

O ensaio CARE, publicado após o GINA 2025, testou em crianças de 5 a 15 anos que utilizavam apenas SABA a combinação budesonida-formoterol em baixa dose conforme necessário, contra salbutamol conforme necessário.

Resultado: taxa anualizada de exacerbações de 0,23 no grupo intervenção contra 0,41 no grupo controle. Relative rate 0,55 (IC 95% 0,35-0,86; p=0,012). Redução de quase metade das exacerbações, sem diferença na velocidade de crescimento entre os grupos.

Com esse achado, o GINA 2026 promoveu ICS-formoterol à opção preferida no Step 1 em crianças de 6 a 11 anos com asma leve, com evidência B. A formulação sugerida é budesonida-formoterol 80/4,5 mcg (dose entregue) conforme necessário, com atenção médica se a criança precisar de mais de 8 inalações em 24 horas.

Os quatro fluxogramas pediátricos

Pela primeira vez, o GINA elaborou fluxogramas pediátricos próprios para exacerbações, não mais derivados do material adulto com ajuste por peso.

A lógica é uma matriz: duas faixas etárias por dois cenários.

Duas faixas etárias: crianças de 6 a 11 anos (com diagnóstico estabelecido, espirometria viável, PRAM aplicável no padrão adulto) e crianças de até 5 anos (sibilância recorrente convivendo com asma incipiente, espirometria inviável, achados clínicos como base).

Dois cenários: atenção primária (consultório) e emergência hospitalar.

Fluxograma 1 (consultório, 6 a 11 anos): classificação de gravidade por PRAM, tratamento conforme categoria, reavaliação em 15 a 20 minutos e 1 hora, e gatilho explícito para transferência à emergência quando não há resposta.

Fluxograma 2 (emergência, 6 a 11 anos): admissão em UTI indicada com PRAM 11-12 ou sinais de crise potencialmente fatal (sonolência, confusão, cianose, tórax silente). Nesses casos, terapia simultânea (não sequencial): SABA + ipratrópio + oxigênio + corticoide sistêmico em paralelo enquanto a UTI é acionada.

Fluxograma 3 (consultório, menores de 5 anos): o que faltava para o pediatra geral. Sinaliza como avaliar (PRAM adaptado, saturação, sinais de gravidade), quando iniciar SABA com espaçador (primeira escolha, não nebulização), quando adicionar corticoide oral e quando transferir. Inclui documentação obrigatória de resposta clínica ao SABA antes da alta.

Fluxograma 4 (emergência, menores de 5 anos): três pontos-chave: alvo de saturação maior ou igual a 92% (não 95%), atenção redobrada a diagnósticos alternativos (bronquiolite, corpo estranho, crupe, cetoacidose diabética), sulfato de magnésio nebulizado não recomendado (magnésio intravenoso segue sendo opção em crise moderada a grave refratária).

O PRAM como recomendação forte

O PRAM (Escore Pediátrico de Avaliação Respiratória) era uma das opções no GINA 2025. Em 2026, passou a ser recomendação forte para menores de 18 anos com exacerbação.

Cinco parâmetros são avaliados, cada um com pontuação de 0 a 3:

  • Saturação de oxigênio: ≥95% (0), 92-94% (1), <92% (2).

  • Retração supraesternal: ausente (0), presente (2).

  • Contração de escalenos: ausente (0), presente (2).

  • Entrada de ar: normal (0), reduzida na base (1), reduzida em ápice e base (2), mínima ou ausente (3).

  • Sibilos: ausentes (0), expiratórios (1), inspiratórios com ou sem expiratórios (2), audíveis sem estetoscópio ou tórax silente (3).

Pontuação total: 0-3 (leve), 4-7 (moderada), 8-12 (grave). PRAM 11-12 configura crise potencialmente fatal e demanda tratamento intensivo simultâneo.

Documentar PRAM na anamnese da crise vira parte da nota clínica, protege legalmente e padroniza a reavaliação.

Saturação e SABA: as mudanças que exigem atenção

Saturação-alvo. O oxigênio suplementar agora só é indicado quando a saturação está abaixo de 92%, em qualquer idade. Se administrado, o limite superior é 95% em adolescentes e crianças de 6 a 11 anos, e alvo maior ou igual a 92% em menores de 5 anos com sibilância aguda.

Dose de SABA na crise leve. 4 puffs de salbutamol 100 mcg, aplicados um de cada vez, com reavaliação antes de repetir. Se houver boa resposta, não há benefício em SABA adicional após a primeira hora. Se persistir ou piorar, titular conforme resposta clínica.

A justificativa é a evidência crescente de que a superdosagem de SABA em crise associa-se a hipocalemia, taquicardia, ansiedade e, mais preocupante, acidose láctica. A acidose gera taquipneia compensatória que pode ser interpretada como piora da asma e leva a mais SABA, criando um ciclo perigoso. Algumas mortes por asma foram associadas a níveis séricos altos de salbutamol.

Anafilaxia associada à crise: adrenalina primeiro

O GINA 2026 incorporou explicitamente em todos os quatro fluxogramas: em anafilaxia associada à crise asmática, adrenalina intramuscular vem antes do broncodilatador. Sempre. A adrenalina intranasal não é indicada em crianças pequenas.

O que muda na sua conduta a partir de hoje

Imprima o PRAM. Vira parte da nota clínica das crises. Padroniza documentação e protege legalmente.

Revise as receitas de crianças de 6 a 11 anos que estão apenas com SABA. Toda criança com diagnóstico de asma deve receber tratamento contendo ICS. Para asma leve, a opção preferida agora é budesonida-formoterol 80/4,5 mcg (dose entregue), conforme necessário.

Ajuste a dose de SABA na crise leve. 4 puffs, um de cada vez, com reavaliação antes de repetir. Nada de "salbutamol 10 puffs de 20 em 20 minutos por 1 hora" sem reavaliar entre as doses.

Atualize o alvo de saturação. Oxigênio suplementar apenas para saturação abaixo de 92%.

Anafilaxia com chiado recebe adrenalina IM primeiro. Antes do salbutamol. Antes da nebulização. Sempre.

Treine a técnica inalatória em toda consulta. Erro de técnica é causa comum de falha terapêutica.

Corticoide oral atualizado (2026):

  • 6 a 11 anos: prednisona/prednisolona 1-2 mg/kg/dia (máximo 40 mg/dia) por 3 a 5 dias, ou dexametasona 0,3-0,6 mg/kg (máximo 12 mg) por 1 a 2 dias.

  • Menores de 2 anos: prednisolona até 20 mg/dia por 3 a 5 dias.

  • 2 a 5 anos: prednisolona até 30 mg/dia por 3 a 5 dias.

Encaminhamento ao pneumopediatra:

  • Asma grave.

  • Sibilância recorrente em menores de 5 anos sem resposta a tratamento padrão.

  • Suspeita de fenótipo asmático complexo.

  • Apresentação potencialmente fatal.

Perguntas frequentes

Todo paciente de 6 a 11 anos com asma leve precisa passar para ICS-formoterol?

A opção preferida agora é ICS-formoterol conforme necessário no Step 1. Para famílias com preferência por manutenção diária, ICS em dose baixa contínua segue sendo opção válida. A decisão deve considerar preferência da família, adesão e disponibilidade do medicamento.

Nebulização ainda é a primeira escolha em crise no consultório?

Não. Em criança que colabora, SABA com espaçador é a primeira escolha, com eficácia equivalente e menos efeitos adversos. Nebulização fica para situações específicas.

O ipratrópio ainda tem papel na crise pediátrica?

Sim, em crise grave e potencialmente fatal, associado ao SABA e em regime simultâneo com corticoide sistêmico e oxigênio.

Magnésio na crise pediátrica: quando indicar?

Magnésio intravenoso segue sendo opção em crise moderada a grave que não responde ao tratamento padrão. O magnésio nebulizado não é recomendado.

Como orientar a família sobre a nova mudança de estratégia?

Enfatize que o GINA 2026 traz evidência mais robusta para asma leve, com redução de quase metade das exacerbações usando budesonida-formoterol conforme necessário, sem prejuízo de crescimento. Essa conversa reduz resistência ao ICS na asma leve.

O documento GINA vale para o Brasil?

Sim. O GINA é referência internacional adotada pela SBP e SBPT, com adaptações nacionais quando cabíveis. A Diretriz Brasileira de Manejo da Asma segue as recomendações do GINA nos aspectos essenciais.

Conclusão prática

Asma é a doença crônica mais prevalente da infância. O GINA 2026 trouxe, pela primeira vez, fluxogramas pediátricos próprios, evidência robusta para tratamento anti-inflamatório desde o Step 1 em crianças de 6 a 11 anos, alvos de saturação mais conservadores e cautela redobrada com superdosagem de SABA.

O pediatra que atualiza a prescrição, documenta o PRAM em toda crise, treina técnica inalatória a cada consulta e revisa as receitas de crianças que estão apenas com SABA está tratando asma de 2026, não de 2024.


Quer continuar se aprofundando em temas que levam o pediatra à excelência clínica?

Toda semana enviamos uma newsletter científica leve, profunda e gratuita, com estudos recentes que valem sua atenção e o resumo prático pra aplicar no consultório já na próxima consulta.

[Assine The Peds Journal] e receba direto na sua caixa de entrada.


Pediatra de Consultório

Domine a puericultura e construa um consultório de referência

O PDC é o programa completo para pediatras de consultório — puericultura atualizada, gestão e marketing médico, com uma comunidade de pediatras que vivem o mesmo desafio que você.

Conhecer o PDC

Aviso Medico

Este conteudo e destinado exclusivamente para fins educativos e nao substitui consulta medica. Sempre consulte um pediatra para orientacoes especificas sobre seu paciente.

Escrito por

pdc

Pediatra

Sobre as criadoras do PDC

Gabrielly de Araujo Precht

Gabrielly de Araujo Precht

CRMSP 194.203 / RQE 99851|998511

Pediatra pelo IAMSPE e Neonatologista pela USP – FMUSP. Pediatra de consultorio. Formacao em Negocios pela Stanford Graduate School of Business.

Julie Anne Colnago

Julie Anne Colnago

CRMSP 120.429 / RQE 32568|325681

Pediatra pelo Hospital Infantil Darcy Vargas – SUS – SP; Hematologista Pediatrica pela UNIFESP e Pos graduacao em Nutricao Infantil pela Boston University School of Medicine. Pediatra de consultorio ha 16 anos.

Artigos Relacionados

Sling ou canguru: orientações sobre uso, segurança e posicionamento do bebê

Sling ou canguru: orientações sobre uso, segurança e posicionamento do bebê

8 min de leitura

Saltos do Desenvolvimento: O Que Dizer para a Família

Saltos do Desenvolvimento: O Que Dizer para a Família

8 min de leitura

Cremes de barreira, óleos e lenços umedecidos: guia do pediatra

Cremes de barreira, óleos e lenços umedecidos: guia do pediatra

8 min de leitura