GINA 2026: Mudanças na Asma Pediátrica e Novas Recomendações
Novos fluxogramas pediátricos, PRAM como recomendação forte, ICS-formoterol no Step 1 em crianças de 6 a 11 anos e alvo de SpO2 mais conservador.

A receita padrão para a criança que chega com crise leve de asma virou reflexo automático em muitos consultórios pediátricos: Salbutamol em várias doses seguidas, corticoide oral, retorno em uma semana.
O documento GINA 2026 (Global Initiative for Asthma), publicado em 5 de maio de 2026, mexeu em várias linhas desse roteiro. E não foi uma mudança sutil: quatro fluxogramas pediátricos inéditos, PRAM como recomendação forte, evidência nova para ICS-formoterol no Step 1 em crianças de 6 a 11 anos, alvo de saturação de oxigênio mais baixo e doses de SABA (beta-2 agonista de curta duração) mais conservadoras.
Aqui você vai encontrar as sete mudanças principais, e como elas mudam a prescrição do consultório.
Resumo rápido
Documento: Global Initiative for Asthma 2026 Strategy Report, publicado em 5 de maio de 2026.
Quatro fluxogramas pediátricos inéditos: dois para crianças de 6 a 11 anos e dois para menores de 5 anos, cada par cobrindo cenários de consultório e emergência.
PRAM (Escore Pediátrico de Avaliação Respiratória) tornou-se recomendação forte para avaliação de exacerbações em menores de 18 anos.
ICS-formoterol em crianças de 6 a 11 anos com asma leve ganhou evidência B como Anti-Inflammatory Reliever (AIR) no Step 1, com base no ensaio CARE.
Oxigênio suplementar agora indicado apenas quando saturação abaixo de 92%.
SABA na crise leve: 4 puffs (um de cada vez), com reavaliação antes de repetir.
Anafilaxia associada à crise asmática: adrenalina intramuscular antes do broncodilatador, sempre.
O ensaio CARE e a virada no Step 1
Em termos simples, o Step 1 do GINA é o degrau de tratamento para asma mais leve, com sintomas raros e intermitentes. Até o GINA 2025, a recomendação para crianças de 6 a 11 anos era ICS em dose baixa de manutenção ou ICS aplicado sempre que houvesse necessidade de SABA. ICS-formoterol como alívio ficava reservado a partir do Step 3, no esquema MART.
O ensaio CARE, publicado após o GINA 2025, testou em crianças de 5 a 15 anos que utilizavam apenas SABA a combinação budesonida-formoterol em baixa dose conforme necessário, contra salbutamol conforme necessário.
Resultado: taxa anualizada de exacerbações de 0,23 no grupo intervenção contra 0,41 no grupo controle. Relative rate 0,55 (IC 95% 0,35-0,86; p=0,012). Redução de quase metade das exacerbações, sem diferença na velocidade de crescimento entre os grupos.
Com esse achado, o GINA 2026 promoveu ICS-formoterol à opção preferida no Step 1 em crianças de 6 a 11 anos com asma leve, com evidência B. A formulação sugerida é budesonida-formoterol 80/4,5 mcg (dose entregue) conforme necessário, com atenção médica se a criança precisar de mais de 8 inalações em 24 horas.
Os quatro fluxogramas pediátricos
Pela primeira vez, o GINA elaborou fluxogramas pediátricos próprios para exacerbações, não mais derivados do material adulto com ajuste por peso.
A lógica é uma matriz: duas faixas etárias por dois cenários.
Duas faixas etárias: crianças de 6 a 11 anos (com diagnóstico estabelecido, espirometria viável, PRAM aplicável no padrão adulto) e crianças de até 5 anos (sibilância recorrente convivendo com asma incipiente, espirometria inviável, achados clínicos como base).
Dois cenários: atenção primária (consultório) e emergência hospitalar.
Fluxograma 1 (consultório, 6 a 11 anos): classificação de gravidade por PRAM, tratamento conforme categoria, reavaliação em 15 a 20 minutos e 1 hora, e gatilho explícito para transferência à emergência quando não há resposta.
Fluxograma 2 (emergência, 6 a 11 anos): admissão em UTI indicada com PRAM 11-12 ou sinais de crise potencialmente fatal (sonolência, confusão, cianose, tórax silente). Nesses casos, terapia simultânea (não sequencial): SABA + ipratrópio + oxigênio + corticoide sistêmico em paralelo enquanto a UTI é acionada.
Fluxograma 3 (consultório, menores de 5 anos): o que faltava para o pediatra geral. Sinaliza como avaliar (PRAM adaptado, saturação, sinais de gravidade), quando iniciar SABA com espaçador (primeira escolha, não nebulização), quando adicionar corticoide oral e quando transferir. Inclui documentação obrigatória de resposta clínica ao SABA antes da alta.
Fluxograma 4 (emergência, menores de 5 anos): três pontos-chave: alvo de saturação maior ou igual a 92% (não 95%), atenção redobrada a diagnósticos alternativos (bronquiolite, corpo estranho, crupe, cetoacidose diabética), sulfato de magnésio nebulizado não recomendado (magnésio intravenoso segue sendo opção em crise moderada a grave refratária).
O PRAM como recomendação forte
O PRAM (Escore Pediátrico de Avaliação Respiratória) era uma das opções no GINA 2025. Em 2026, passou a ser recomendação forte para menores de 18 anos com exacerbação.
Cinco parâmetros são avaliados, cada um com pontuação de 0 a 3:
Saturação de oxigênio: ≥95% (0), 92-94% (1), <92% (2).
Retração supraesternal: ausente (0), presente (2).
Contração de escalenos: ausente (0), presente (2).
Entrada de ar: normal (0), reduzida na base (1), reduzida em ápice e base (2), mínima ou ausente (3).
Sibilos: ausentes (0), expiratórios (1), inspiratórios com ou sem expiratórios (2), audíveis sem estetoscópio ou tórax silente (3).
Pontuação total: 0-3 (leve), 4-7 (moderada), 8-12 (grave). PRAM 11-12 configura crise potencialmente fatal e demanda tratamento intensivo simultâneo.
Documentar PRAM na anamnese da crise vira parte da nota clínica, protege legalmente e padroniza a reavaliação.
Saturação e SABA: as mudanças que exigem atenção
Saturação-alvo. O oxigênio suplementar agora só é indicado quando a saturação está abaixo de 92%, em qualquer idade. Se administrado, o limite superior é 95% em adolescentes e crianças de 6 a 11 anos, e alvo maior ou igual a 92% em menores de 5 anos com sibilância aguda.
Dose de SABA na crise leve. 4 puffs de salbutamol 100 mcg, aplicados um de cada vez, com reavaliação antes de repetir. Se houver boa resposta, não há benefício em SABA adicional após a primeira hora. Se persistir ou piorar, titular conforme resposta clínica.
A justificativa é a evidência crescente de que a superdosagem de SABA em crise associa-se a hipocalemia, taquicardia, ansiedade e, mais preocupante, acidose láctica. A acidose gera taquipneia compensatória que pode ser interpretada como piora da asma e leva a mais SABA, criando um ciclo perigoso. Algumas mortes por asma foram associadas a níveis séricos altos de salbutamol.
Anafilaxia associada à crise: adrenalina primeiro
O GINA 2026 incorporou explicitamente em todos os quatro fluxogramas: em anafilaxia associada à crise asmática, adrenalina intramuscular vem antes do broncodilatador. Sempre. A adrenalina intranasal não é indicada em crianças pequenas.
O que muda na sua conduta a partir de hoje
Imprima o PRAM. Vira parte da nota clínica das crises. Padroniza documentação e protege legalmente.
Revise as receitas de crianças de 6 a 11 anos que estão apenas com SABA. Toda criança com diagnóstico de asma deve receber tratamento contendo ICS. Para asma leve, a opção preferida agora é budesonida-formoterol 80/4,5 mcg (dose entregue), conforme necessário.
Ajuste a dose de SABA na crise leve. 4 puffs, um de cada vez, com reavaliação antes de repetir. Nada de "salbutamol 10 puffs de 20 em 20 minutos por 1 hora" sem reavaliar entre as doses.
Atualize o alvo de saturação. Oxigênio suplementar apenas para saturação abaixo de 92%.
Anafilaxia com chiado recebe adrenalina IM primeiro. Antes do salbutamol. Antes da nebulização. Sempre.
Treine a técnica inalatória em toda consulta. Erro de técnica é causa comum de falha terapêutica.
Corticoide oral atualizado (2026):
6 a 11 anos: prednisona/prednisolona 1-2 mg/kg/dia (máximo 40 mg/dia) por 3 a 5 dias, ou dexametasona 0,3-0,6 mg/kg (máximo 12 mg) por 1 a 2 dias.
Menores de 2 anos: prednisolona até 20 mg/dia por 3 a 5 dias.
2 a 5 anos: prednisolona até 30 mg/dia por 3 a 5 dias.
Encaminhamento ao pneumopediatra:
Asma grave.
Sibilância recorrente em menores de 5 anos sem resposta a tratamento padrão.
Suspeita de fenótipo asmático complexo.
Apresentação potencialmente fatal.
Perguntas frequentes
Todo paciente de 6 a 11 anos com asma leve precisa passar para ICS-formoterol?
A opção preferida agora é ICS-formoterol conforme necessário no Step 1. Para famílias com preferência por manutenção diária, ICS em dose baixa contínua segue sendo opção válida. A decisão deve considerar preferência da família, adesão e disponibilidade do medicamento.
Nebulização ainda é a primeira escolha em crise no consultório?
Não. Em criança que colabora, SABA com espaçador é a primeira escolha, com eficácia equivalente e menos efeitos adversos. Nebulização fica para situações específicas.
O ipratrópio ainda tem papel na crise pediátrica?
Sim, em crise grave e potencialmente fatal, associado ao SABA e em regime simultâneo com corticoide sistêmico e oxigênio.
Magnésio na crise pediátrica: quando indicar?
Magnésio intravenoso segue sendo opção em crise moderada a grave que não responde ao tratamento padrão. O magnésio nebulizado não é recomendado.
Como orientar a família sobre a nova mudança de estratégia?
Enfatize que o GINA 2026 traz evidência mais robusta para asma leve, com redução de quase metade das exacerbações usando budesonida-formoterol conforme necessário, sem prejuízo de crescimento. Essa conversa reduz resistência ao ICS na asma leve.
O documento GINA vale para o Brasil?
Sim. O GINA é referência internacional adotada pela SBP e SBPT, com adaptações nacionais quando cabíveis. A Diretriz Brasileira de Manejo da Asma segue as recomendações do GINA nos aspectos essenciais.
Conclusão prática
Asma é a doença crônica mais prevalente da infância. O GINA 2026 trouxe, pela primeira vez, fluxogramas pediátricos próprios, evidência robusta para tratamento anti-inflamatório desde o Step 1 em crianças de 6 a 11 anos, alvos de saturação mais conservadores e cautela redobrada com superdosagem de SABA.
O pediatra que atualiza a prescrição, documenta o PRAM em toda crise, treina técnica inalatória a cada consulta e revisa as receitas de crianças que estão apenas com SABA está tratando asma de 2026, não de 2024.
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Aviso Medico
Este conteudo e destinado exclusivamente para fins educativos e nao substitui consulta medica. Sempre consulte um pediatra para orientacoes especificas sobre seu paciente.
Escrito por
pdc
Pediatra
Sobre as criadoras do PDC

Gabrielly de Araujo Precht
CRMSP 194.203 / RQE 99851|998511
Pediatra pelo IAMSPE e Neonatologista pela USP – FMUSP. Pediatra de consultorio. Formacao em Negocios pela Stanford Graduate School of Business.

Julie Anne Colnago
CRMSP 120.429 / RQE 32568|325681
Pediatra pelo Hospital Infantil Darcy Vargas – SUS – SP; Hematologista Pediatrica pela UNIFESP e Pos graduacao em Nutricao Infantil pela Boston University School of Medicine. Pediatra de consultorio ha 16 anos.


