Liraglutida na obesidade infantil: impacto do estudo NEJM
Veja o que o ensaio SCALE Kids mostrou sobre liraglutida em crianças de 6-11 anos com obesidade: eficácia, segurança e implicações para o pediatra.

A família chega ao consultório com uma criança de 9 anos, IMC no percentil 99, glicemia limítrofe, e o questionamento sobre uma medicação que ela ouviu falar.
Em setembro de 2024, o New England Journal of Medicine publicou o ensaio SCALE Kids (Fox et al.), primeiro estudo de fase 3 com agonista GLP-1 em crianças de 6 a 11 anos. Os resultados redefiniram o que existe de evidência para tratamento medicamentoso da obesidade infantil grave.
Respostas relâmpago
Liraglutida está aprovada para criança no Brasil? Não para menores de 12 anos. Para adolescentes a partir de 12 anos, sim, com indicação restrita.
Como funciona? É agonista do receptor GLP-1, reduzindo o apetite, retardando o esvaziamento gástrico e aumentando a saciedade.
O efeito substitui dieta e exercício? Não. No estudo, todos receberam intervenção de estilo de vida. A medicação foi complemento.
Qual a magnitude do efeito? Diferença de 7,4 pontos percentuais no IMC e 8,4 pontos no peso, a favor da liraglutida, em 56 semanas.
Qual o efeito colateral mais comum? Sintomas gastrointestinais (náusea, vômito, diarreia) durante a titulação da dose. Manejável com aumento gradual.
Pediatra de consultório pode prescrever? Em menores de 12 anos, ainda não. Casos graves devem ser encaminhados à endocrinologia pediátrica.
O que o ensaio SCALE Kids mostrou
Conduzido em 23 centros de 9 países entre março de 2021 e janeiro de 2024, o estudo randomizou 82 crianças com idade entre 6 e <12 anos e IMC no percentil 95 ou maior. Estadiamento puberal de Tanner 1 a 5. Randomização 2:1, com 56 semanas de tratamento e 26 semanas de seguimento sem medicação. Todas as crianças receberam intervenção estruturada de estilo de vida.
A dose foi titulada gradualmente até 3,0 mg subcutâneos ao dia (ou dose máxima tolerada), conforme o peso e a tolerância individual. A média de idade foi 10 anos, IMC médio basal de 31 kg/m². Mais da metade (55%) já tinha pelo menos uma complicação relacionada à obesidade.
Desfecho primário (variação percentual no IMC em 56 semanas):
Grupo liraglutida: −5,8%.
Grupo placebo: +1,6%.
Diferença estimada: −7,4 pontos percentuais (IC95% −11,6 a −3,2; p<0,001).
Variação percentual no peso corporal:
Grupo liraglutida: +1,6%.
Grupo placebo: +10,0%.
Diferença: −8,4 pontos percentuais (IC95% −13,4 a −3,3; p=0,001).
Enquanto o grupo placebo ganhou 10% do peso em menos de um ano, o grupo liraglutida praticamente estabilizou o peso em fase de crescimento. A interpretação do desfecho em crianças precisa considerar isso. A criança continua crescendo em altura mesmo quando o peso estabiliza, o que muda o IMC e a relação peso/estatura para idade.
Redução de IMC ≥ 5%: 46% no grupo liraglutida vs 9% no placebo (odds ratio ajustado 6,3; p=0,02).
E o efeito não foi só na balança: houve melhora também em glicemia de jejum, perfil lipídico (redução de LDL) e marcadores de resistência insulínica.
Os efeitos colaterais que precisam ser conversados
Eventos gastrointestinais ocorreram em 80% do grupo liraglutida contra 54% do grupo placebo. Náusea, vômito, diarreia. Padrão característico dos agonistas GLP-1, mais intensos no início do tratamento, durante a fase de titulação da dose.
A titulação lenta (começando com doses muito baixas e aumentando ao longo de semanas) reduz significativamente a intensidade dos sintomas, e a maioria das crianças tolera bem após a fase inicial.
Eventos adversos sérios ocorreram em 12% do grupo liraglutida vs 8% do placebo. Não houve casos de pancreatite, câncer medular de tireoide, colelitíase complicada ou hipoglicemia grave nas 56 semanas. O perfil é gerenciável.
A extensão aberta do estudo segue até janeiro de 2027 e trará dados de longo prazo sobre crescimento, desenvolvimento puberal e segurança continuada.
O que muda na prática do pediatra geral
A liraglutida não está aprovada para menores de 12 anos. Mas o cenário não é mais o mesmo de antes do estudo. O pediatra precisa estar preparado para três movimentos:
Primeiro: reforçar que a intervenção de estilo de vida segue sendo a base do tratamento da obesidade infantil. Alimentação adequada, atividade física regular, sono suficiente, abordagem familiar, redução de tela. Nenhum agonista GLP-1 substitui isso.
Segundo: reconhecer que em obesidade grave (IMC ≥ percentil 99 ou IMC classe 2 e 3) com comorbidades, a intervenção isolada de estilo de vida frequentemente não é suficiente. Esse é o cenário em que a discussão farmacológica entra, e onde o encaminhamento à endocrinologia pediátrica faz diferença.
Terceiro: preparar a resposta para a pergunta que vai chegar. Honestidade aqui é a melhor estratégia. Comunique algo como: "Existe um estudo de alta qualidade publicado no NEJM mostrando resultados consistentes com liraglutida em crianças de 6 a 11 anos com obesidade. A medicação ainda não tem aprovação regulatória para essa faixa. Enquanto a aprovação não vem, nossa estratégia segue sendo intervenção intensiva de estilo de vida, e nos casos mais graves, avaliação compartilhada com a endocrinologia pediátrica."
Perguntas frequentes
Quando indicar avaliação especializada para uma criança com obesidade?
IMC ≥ percentil 99, ou IMC ≥ percentil 95 com comorbidades (resistência insulínica, dislipidemia, hipertensão, apneia do sono, doença hepática gordurosa, prejuízo psicossocial significativo). Histórico familiar de obesidade grave também deve pesar na decisão.
O efeito da liraglutida se mantém após parar a medicação?
A obesidade é uma doença crônica. Estudos em adultos e adolescentes mostram recuperação parcial do peso após interrupção. A extensão do SCALE Kids vai trazer mais dados sobre isso em crianças.
Existe risco de interferência no crescimento?
Nas 56 semanas do estudo, não houve impacto negativo significativo sobre a velocidade de crescimento. O acompanhamento de longo prazo segue em curso para confirmar este achado.
Vale combinar GLP-1 com cirurgia bariátrica em criança?
Cirurgia bariátrica pediátrica tem indicação muito restrita e exige avaliação multidisciplinar especializada. A combinação com agonistas GLP-1 não é tema da prática do pediatra geral.
E a semaglutida (Ozempic, Wegovy) em criança menor de 12 anos?
Aprovada apenas a partir de 12 anos. Estudos em faixas mais jovens estão em andamento, mas os dados consolidados em menores de 12 anos hoje são os da liraglutida.
Conclusão prática
A liraglutida não vai virar prescrição rotineira do pediatra de consultório em criança menor de 12 anos tão cedo. Mas o ponto não é esse.
O ponto é que a obesidade grave em criança passou a ter uma ferramenta farmacológica com dados sólidos. A intervenção de estilo de vida segue sendo a base, mas deixou de ser a única estratégia disponível. Para o pediatra, isso significa saber identificar um caso grave, encaminhar no tempo certo e conversar com a família com base nas evidências mais atuais.
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Aviso Medico
Este conteudo e destinado exclusivamente para fins educativos e nao substitui consulta medica. Sempre consulte um pediatra para orientacoes especificas sobre seu paciente.
Escrito por
pdc
Pediatra
Sobre as criadoras do PDC

Gabrielly de Araujo Precht
CRMSP 194.203 / RQE 99851|998511
Pediatra pelo IAMSPE e Neonatologista pela USP – FMUSP. Pediatra de consultorio. Formacao em Negocios pela Stanford Graduate School of Business.

Julie Anne Colnago
CRMSP 120.429 / RQE 32568|325681
Pediatra pelo Hospital Infantil Darcy Vargas – SUS – SP; Hematologista Pediatrica pela UNIFESP e Pos graduacao em Nutricao Infantil pela Boston University School of Medicine. Pediatra de consultorio ha 16 anos.


