Precificação da Consulta Pediátrica: Calcule o Preço Justo
Como calcular o preço mínimo da consulta pediátrica, os custos que a maioria esquece e quando reajustar. Fórmula prática para o consultório.

Quanto vale exatamente a sua hora? Se você travou na resposta, você está junto da maioria dos médicos brasileiros.
O problema não é acadêmico e é o motivo pelo qual muito consultório fecha o mês no negativo sem que o profissional perceba, achando que "está tudo bem" enquanto paga para trabalhar.
Este artigo te entrega a fórmula prática para calcular o preço mínimo da consulta, os custos que quase todo mundo esquece de incluir, quando fazer reajuste e uma armadilha tributária que pega quem monta consultório em sociedade.
Resumo rápido
Preço mínimo da consulta = total das despesas mensais dividido pelo número de consultas realizadas por mês.
A maioria dos médicos calcula despesa parcial e chega a um preço mínimo subestimado. Só que os custos esquecidos podem chegar a R$ 3.000 a R$ 4.000 por mês.
Preço mínimo cobre apenas as despesas. Preço justo considera experiência, posicionamento e valor entregue.
Reajuste anual mínimo pela inflação (4% a 5% no Brasil) é obrigação, não escolha.
Regime tributário Lucro Presumido: adicional de IRPJ de 10% quando o lucro presumido trimestral ultrapassa R$ 60 mil. Isso gera impacto direto para consultórios em sociedade.
Por que os médicos precificam mal
Antes de conhecer os números, você precisa entender que existem quatro razões emocionais que bloqueiam a precificação adequada. Reconhecê-las é parte da solução:
Síndrome do impostor. A voz interna que diz "ainda não mereço cobrar isso", "sou nova de carreira", "tem gente melhor cobrando menos". Vale lembrar que o paciente não paga pelo tempo de currículo, mas pela transformação que a consulta entrega para a família.
Complexo da vocação. A ideia de que "médico de verdade não pensa em dinheiro". O serviço médico é vendido em horas, e tempo é recurso finito. Médico bem remunerado atende melhor, com mais calma, mais tempo e mais valor entregue à família.
Comparação com colegas. Preço do colega A não considera custos do colega A. Não se sabe se o consultório dele está no positivo, se ele tem estrutura própria, se atende em regime de linha de produção, se está mesmo entregando o mesmo tipo de consulta. A referência útil é o próprio consultório e a própria trajetória.
Medo de reajuste. Pode acreditar: paciente que sai porque o preço subiu 10% nunca foi paciente fiel. Era paciente de preço, e paciente de preço migra para quem cobra menos. Paciente de valor permanece.
A fórmula do preço mínimo
Em termos simples: o preço mínimo da consulta é o valor abaixo do qual o profissional trabalha no prejuízo. É o piso, não a meta.
Fórmula: preço mínimo = (total de despesas mensais) ÷ (número de consultas mensais).
Exemplo prático de uma pediatra estabilizando o consultório com 40 consultas por mês (cerca de 10 por semana):
Despesas fixas visíveis:
Aluguel de sala ou coworking médico: R$ 1.500.
Recepção ou secretária: R$ 1.700.
DAS do Simples Nacional (6% sobre R$ 10.000 de faturamento): R$ 600.
Contador: R$ 350.
Anuidade CRM PJ e outros (rateados por mês): R$ 200.
Software de prontuário eletrônico: R$ 200.
Total: R$ 4.550 por mês.
Aplicando: R$ 4.550 ÷ 40 = R$ 113,75 por consulta apenas para cobrir despesas visíveis.
Mas esse cálculo não para por aí.
Os custos que quase todo mundo esquece
Tempo de prontuário e materiais pós-consulta. Após o encerramento formal da consulta, o profissional segue finalizando anotações, preparando orientações, enviando materiais. Isso é tempo trabalhado, não pago.
Comunicação fora do horário. WhatsApp com mães, respostas a dúvidas, orientações intercorrentes. Duas a três horas diárias de trabalho não contabilizado.
Educação continuada. Congressos, cursos, mentorias, livros, assinaturas de plataformas científicas. Pode chegar a R$ 8.000 a R$ 10.000 por ano. Diluído: R$ 700 a R$ 800 por mês.
Equipamentos e depreciação. Otoscópio, oxímetro, balança, fita métrica, brinquedos, materiais de consultório… esses materiais depreciam e eventualmente precisam ser substituídos.
Reserva para férias e afastamento. O profissional autônomo não atende 12 meses no ano. Atende 10 ou 11. Os meses de ausência precisam estar bancados pelos meses de trabalho.
Somando esses custos, adicionam-se em torno de R$ 3.000 a R$ 4.000 por mês.
Cálculo corrigido: despesa real de R$ 8.000 (aproximadamente) ÷ 40 consultas = R$ 200 por consulta como preço mínimo real.
A diferença entre o cálculo parcial e o cálculo completo pode representar R$ 3.500 por mês deixados na mesa.
Do preço mínimo ao preço justo
Preço mínimo cobre seus custos. Preço justo remunera seu trabalho.
Aqui estão os fatores que compõem o preço justo além do mínimo:
Experiência clínica acumulada. Anos de formação, especialização, prática de consultório. Tudo isso tem valor.
Posicionamento profissional. Consulta com anamnese ampliada, tempo prolongado, orientação estruturada, suporte pós-consulta. Não é a mesma coisa que consulta de 15 minutos em rede credenciada.
Contexto de mercado. Faixa de preço praticada por profissionais com posicionamento e formação equivalentes na mesma região.
Estrutura oferecida. Consultório próprio versus coworking. Sala com estrutura versus atendimento em ambiente compartilhado. Materiais entregues ao paciente. Suporte de secretária dedicada.
O preço justo raramente é 20% acima do mínimo. Costuma ser 50% a 100% acima, dependendo do posicionamento e da entrega do pediatra.
Quando é a hora de reajustar
Reajuste não é escolha, mas obrigação para preservar o valor real do trabalho ao longo do tempo.
Reajuste anual mínimo pela inflação. No Brasil, tipicamente fica em torno de 4% a 5% ao ano. Não reajustar significa perder valor real todos os anos.
Reajuste por demanda. Agenda cheia com 2 a 3 meses de antecedência é sinal claro de que o mercado paga mais que o preço atual. Aumentar preço reorganiza a agenda e restaura equilíbrio entre oferta e demanda.
Reajuste por melhora de entrega. Nova certificação, pós-graduação, especialização, ampliação de escopo da consulta... Se a entrega mudou, o preço deve acompanhar.
E pode reajustar com tranquilidade: paciente fiel entende reajustes fundamentados. Paciente de preço migra, e isso tem que estar dentro do esperado.
A armadilha do Lucro Presumido em sociedade
Consultório em sociedade que optou pelo Lucro Presumido enfrenta uma questão tributária específica: o Lucro Presumido tem alíquota base, mas incide um adicional de IRPJ de 10% quando o lucro presumido da empresa passa de R$ 60 mil por trimestre (equivalente a R$ 20 mil por mês de lucro presumido).
Para serviço médico, com presunção de 32% sobre a receita, isso corresponde a faturamento total da PJ acima de R$ 62.500 por mês. E quanto mais sócios, mais fácil ultrapassar esse limite.
Cenário prático: três sócios faturando R$ 25.000 cada por mês somam R$ 75.000 mensais. O adicional de 10% é acionado.
Recomendação prática: manter PJs com no máximo 2 a 3 sócios, e revisar anualmente com contador especializado em área médica se compensa manter a sociedade única ou separar em PJs distintas.
Perguntas frequentes
Como calcular o preço se ainda não tenho volume estabilizado de consultas?
Calcular com base no número realista de consultas projetadas para os próximos 3 meses, não com base em cenário otimista. Ajustar a cada trimestre conforme a agenda evolui.
Vale a pena baixar o preço para atrair mais pacientes no início?
Não. Preço abaixo do mínimo é prejuízo garantido. E paciente atraído por preço baixo migra assim que aparece uma opção mais barata. Melhor cobrar o preço adequado e trabalhar em captação e posicionamento.
Como responder quando o paciente reclama do preço?
Sem justificativas defensivas. Fica aqui uma versão útil: "Entendo. Nosso trabalho tem essa estrutura porque entregamos [descrever brevemente a diferenciação: tempo de consulta, suporte, materiais]. Se não fizer sentido no momento, sem problemas. Ficamos à disposição quando fizer."
Devo fazer preços diferenciados para primeira consulta e retorno?
Depende do modelo. Alguns consultórios cobram primeira consulta com valor superior (justificado pelo tempo maior e pela anamnese completa). Retornos podem ter valor menor. Pacote de puericultura anual é outra estratégia comum.
Cobrar por WhatsApp fora do horário é possível?
Sim, com regras claras. Consulta por WhatsApp ou vídeo fora do escopo do acompanhamento habitual pode ter cobrança específica, definida em contrato de prestação de serviços que a família aceita ao iniciar o acompanhamento.
Como saber se estou cobrando muito pouco?
Três sinais: sobra menos de 30% do faturamento no fim do mês, agenda cheia com 2 a 3 meses de antecedência (mercado pagando mais), sensação persistente de trabalhar demais para o retorno obtido.
Conclusão prática
Cobrar pouco não é humildade. É autossabotagem financeira que compromete a sustentabilidade do consultório e, no longo prazo, a qualidade da entrega ao paciente.
A tarefa da semana é objetiva: abrir uma planilha, listar todas as despesas (visíveis e esquecidas), dividir pelo número realista de consultas mensais e comparar o resultado com o preço praticado hoje. Se a diferença for grande, essa diferença é o tamanho do seu prejuízo atual. E também o tamanho da sua oportunidade.
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Aviso Medico
Este conteudo e destinado exclusivamente para fins educativos e nao substitui consulta medica. Sempre consulte um pediatra para orientacoes especificas sobre seu paciente.
Escrito por
pdc
Pediatra
Sobre as criadoras do PDC

Gabrielly de Araujo Precht
CRMSP 194.203 / RQE 99851|998511
Pediatra pelo IAMSPE e Neonatologista pela USP – FMUSP. Pediatra de consultorio. Formacao em Negocios pela Stanford Graduate School of Business.

Julie Anne Colnago
CRMSP 120.429 / RQE 32568|325681
Pediatra pelo Hospital Infantil Darcy Vargas – SUS – SP; Hematologista Pediatrica pela UNIFESP e Pos graduacao em Nutricao Infantil pela Boston University School of Medicine. Pediatra de consultorio ha 16 anos.
